24
07/14

 

Acordo cedo. Não consigo tomar café da manhã, estou sempre atrasado. Não ando de carro (aliás, nem sei dirigir). Fico cerca de dez minutos no ponto de ônibus diariamente, esperando o primeiro dos dois que tenho que tomar para ir pro trabalho. Se o trânsito está caótico, são dois ônibus e duas baldeações de metrô pra chegar. Nos transportes, gente de cara feia, mal humorada, me olhando torto por estar “bem vestido” (leia-se ter um penteado diferente e saber escolher as peças de roupa). Ninguém olha que estou saindo do mesmo bairro e que não estou no meu próprio veículo, com ar condicionado e conforto. As vezes vou em pé, entre empurrões e encoxadas. Trabalho (e como trabalho), para ter uma vida um pouco mais confortável, ainda que no que chamam de subúrbio.
 

 
Com uma rotina diária de incômodos do proletariado comum, faço questão de guardar dinheiro para gastar comigo e com os meus gostos. Gosto de comer bem (leia-se um America, não um Figueira), de comprar roupas pela internet (o preço é melhor) e de viajar. Amo viajar. Viajaria uma vez por mês ou a vida toda, mas as responsabilidades não permitem. Logo, opto por fazer alguma viagem legal no fim do ano ou nas raras férias que tenho. Gasto em uma semana o que sofri pra ganhar em meses.

 

Já fui passar o Réveillon em Nova York, de “Business Class”, mas passei o Natal com os comissários de bordo. Fiquei hospedado em um hotel baratinho que encontrei indo de ponto em ponto no Google Maps, mandando e-mail e ligando, pois se fechasse o primeiro que visse pagaria o valor de um resort no Brasil. Jantei um dia pela quinta avenida, mas comi três vezes pizza de um dólar. Vi a virada do ano na Times Square, mas tive que voltar rapidinho, pois o voo era pela manhã do primeiro dia do ano e não haveria tempo para comemorações mais longas. Aproveitei Manhattan por uma semana, embora quisesse ficar mais, pois foi o melhor que consegui negociar no trabalho.

 

Viajei para Orlando, tirei foto com o Mickey, voltei com muitas compras, mas paguei no boleto bancário. Fui para Ilhabela, mas não fiquei em hotel cinco estrelas, fiquei em pousadinha. Fui para Paraty, mas negociei o valor do site de compras coletivas direto com o hotel. Ganhei parte de algumas viagens. Outras paguei por completo, um valor alto, por não ter me programado e decidido em cima da hora.

 

Ouvi muitos “nossa, como você é rico” e respondi com uns “o valor da parcela é o mesmo de duas baladas e bares que você deixa de ir no mês”. Ouvi alguns “tá metido, hein?” de gente que acabou de trocar de carro. Ouvi um e outro “sua vida é muito glamorosa” de gente que vai ao shopping fazer compras todo o fim de semana. Ouvi poucos “parabéns, você merece!”.

 

Entre uma viagem e outra, entre uma #selfie com Cinderela ou na Times Square, cheguei tarde em casa, sofri pelo racionamento de água no bairro, corri para não perder o último ônibus, escondi o celular para não ser assaltado, andei mais rápido porque a rua estava deserta, perdi feriados, fiz freelas, tive problemas pessoais, chorei de raiva e fiquei puto por morar longe, mas desses tombos ninguém sabe, porque é mais fácil invejar do que batalhar. O melhor do outro é sempre melhor que o seu.

 


6 comentários



  • http://ranieritrecha.com/blog Ranieri Trecha

    Motivador. Adorei Bru! Só ressalto o quanto você é demais, desde sempre.

    • http://umsentimentopordia.com.br/ brunoernica

      Obrigado, Rani! <3

  • Veronica

    “sofri pelo racionamento de água no bairro”
    Descobrimos o segredo do cabelo!

  • Bianca Xavier Rebollar

    Amei o texto, realidade pura da vida de muita gente!!! Muito bom com as palavras.

  • http://www.confabulando.com.br/ Fernanda N

    oie bruno, tudo bem?
    adorei o texto… acho que é bem isso mesmo, as pessoas só enxergam o que é externo e não vem as dificuldades que a gente enfrenta para conquistar o que temos. mas a vida é dura pra todo mundo, néam? fico feliz que, mesmo em meio a dificuldades, você consegue fazer coisas bacanas e aproveitar o tempo que tem para si mesmo… eu faço como você, parcelo tudinho e sou feliz assim mesmo. com pouco e com muita dignidade! :)

    beijoooo

  • Fábio Maia Leal

    Que texto lindo, parabéns pela sua trajetória.


© 2013 brunoernica.com                                                    Ilustração por Zé Mário.                                             Programação por Bárbara.