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08/12

A internet é uma grande cidade, onde os oportunistas se vestem de andarilhos e estão à espreita para tirar algo de alguém. Muitas vezes você não percebe, não vê, não sente. É tudo muito rápido, assim como a velocidade das informações. Ou seja, se você não duvidar de tudo o que estiver fazendo, seja uma compra online ou uma transação bancária, poderá sair lesado. Não, você não tem que duvidar do mundo e viver dentro de uma bolha, mas tem que ter um pouquinho de pé no chão.

Lembro-me de quando eu era agente de viagens e recebia alguns e-mails de pessoas de outros países querendo comprar passagens aéreas com cartão de crédito internacional, dizendo que haviam gostado da agência e coisas do tipo. Na verdade, não. Eles não gostaram da agência, eles só queriam cometer um crime em paz, pois se a agência fosse entrar na justiça, provavelmente teriam que fazer isso fora do país, e a dor de cabeça seria maior que o golpe. Nunca caímos, mas sempre foi um alerta.

Nas últimas semanas vi uma oferta de um apartamento lindo, mobiliado, numa região legal, onde o aluguel sairia por módicos R$ 1.000. Um pequeno sonho ao meu alcance. Entrei em contato com o anunciante que, poucos dias depois, respondeu o e-mail em inglês. Um sr. Chamado Erik Natson, que vive em Bristol na Inglaterra, montou o apartamento para a sua filha estudar no Brasil e não ia precisar mais. Ele estava prestes a se aposentar e logo seria avô. Uma linda história. Senti vontade de abraçá-lo.

Recadinho para Erik Natson: não fui alfabetizado em inglês, porém sou espertinho.

Por mais lúdico que fosse, não me contentei em pensar “é presente de Deus!”. Peguei as imagens do apartamento, joguei no Google Imagens e nada, ou seja, tudo estava bem real. Contudo, procurando o nome do suposto anunciante, não obtive resultados. Como alguém pode não ter o nome num resultado de busca do Google?  Até a minha avó que nem sabe ligar um computador tem o nome lá. Nenhum nome que o suposto anunciante me passou também existia na rede, inclusive da filha dele, que estudou no Brasil (e provavelmente teria seu nome em alguma lista de universidade).

Erik Natson foi fundo e tentou me convencer a depositar R$ 2.000,00 para ele através de uma imobiliária internacional. Obviamente, contatei a imobiliária que não fazia transações assim, facilmente. Então sugeri um contrato e ver o apartamento antes de qualquer coisa (Erik queria que eu fizesse um pré-depósito e depois que eu visse o apartamento e gostasse, o dinheiro cairia em sua conta). Erik nunca mais respondeu.

Fotos do apartamento: quase um cenário de novela.

Recebi um email da imobiliária a respeito do apartamento, porém, o nome do anunciante apareceu como Miguel Malheiros de Araujo. Erik Natson nunca existiu, muito menos a sua linda família de Bristol. O neto dele não estava prestes a nascer. A filha dele jamais veio para o Brasil. Era só uma linda história que custaria a bagatela de R$ 2.000, mais do que um roteiro de um cineasta amador.

O sonho, e o golpista, voltavam a caminhar pelas ruas da internet. Eu continuo a caminhar por aqui, mas com uma mão no bolso e outra no Google.

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UPDATE:

1. O post virou pauta no G1, e apareci lá! http://glo.bo/MkNkiy
2. A Tati Lopatiuk também viveu algo parecido, ó: http://bit.ly/MfwEsA
3. Encontrei mais um post de alguém que viveu algo parecido, da Yasmin Medeiros: http://bit.ly/O1sAuC
4. Uma amiga veio falar que o namorado quase caiu nesse mesmo golpe, mas que foi ver o apartamento, e ele não existia.


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